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Declaração de Marcelo a desvalorizar número de abusos sexuais na Igreja causa enorme contestação

Marcelo Rebelo de Sousa foi chamado a comentar a polémica dos abusos sexuais na Igreja, em Portugal. E a resposta do Presidente da República não poderia ter sido pior recebida, por deixar entender uma desvalorização de um tema que é tão grave.

“Haver 400 casos não me parece particularmente elevado porque noutros países com horizontes [temporais de investigação] mais pequenos houve milhares de casos”, disse o Presidente da República portuguesa sobre as 424 denúncias recebidas pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja (CIEAMI), que foram divulgadas esta terça-feira, 11 de outubro.

Marcelo não ficou “surpreendido” com o número de denúncias, que não considera “particularmente elevado”. Ora, a reação do Presidente da República foi muito mal recebida. Afinal, um caso já seria a mais, que fará as 424 vítimas que tiveram a coragem de finalmente denunciar. Serão mais as vítimas de abusos perpetrados por membros da Igreja, sendo que muitas não conseguiram ou não quiseram denunciar.

Nas redes sociais, cresceu rapidamente a onda de repulsa face à declaração de Marcelo Rebelo de Sousa, com muitos a pedirem a demissão do Presidente da República, por desvalorizar desta forma um crime tão grave e hediondo.

Entre os famosos, Bruno Nogueira não tardou a reagir, com o seu sarcasmo habitual. “Também concordo. É por isso que este país não avança, nem na pedofilia temos números bons. Eu esperava até aos 800, depois logo se faz pedra, papel ou tesoura para decidir próximos passos”, escreveu o humorista. Já a Pipoca Mais Doce pediu explicações, com um “Oi????”, completamente atónita com semelhante resposta de Marcelo.

“Já discordei muitas vezes de Marcelo Rebelo de Sousa mas nunca como hoje tive vergonha do presidente da minha República”, “o Marcelo já veio dizer que o seu cérebro foi “hackeado” ou mantém a alarvidade que disse?”, “Agora a sério: o Marcelo não estará senil? Ele sempre falou demais, irrefletidamente e sobre tudo, mas isto rebenta a escala da falta de filtro e de noção”, “400 casos é um número que nos deve envergonhar. 400 crianças despedaçadas para sempre. A declaração de Marcelo é de uma falta de empatia, de solidariedade, de compaixão chocante e revoltante. Há temas que não podem ser abordados em modo incontinência verbal de flash interview”, ou “o Marcelo comenta abusos sexuais como quem comenta casos diários de covid”, são alguns entre muitos comentários nas redes sociais.

No Parlamento, quase todos os partidos reagiram contra a declaração de Marcelo. “400 queixas de abusos de menores validadas pela Comissão Independente e o comentário do Presidente da República é ‘o número não é particularmente elevado’. É este o Presidente de uma República laica e de um Estado de Direito? Lamentável. Fosse um caso apenas e já era preocupante”, disse Pedro Filipe Soares, do Bloco de Esquerda.

“Senhor Presidente, imagine todo o sofrimento e coragem que foi preciso para que 400 pessoas partilhassem as histórias de abusos que guardaram durante anos. As suas declarações podem ter por consequência minimizar esse sofrimento e desencorajar quem ainda procura forças para falar”, disse também Rui Tavares, do Livre, a lançar também uma questão pertinente sobre a dificuldade para se denunciar estes crimes.

“Marcelo Rebelo de Sousa deve um pedido de desculpas às vítimas e ao país”, exigiu a Iniciativa Liberal.

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